O novelo di Marina Navarro Lins

A pertou a descarga, levantou a calcinha e o short roxo de algodão. Equilibrou os pés descalços nas extremidades do banquinho em formato de coração, com cuidado para não pisar na ursinha de vestido azul no centro do laqueado branco. Com a pia na altura do umbigo, Catarina lavou as mãos sem pressa, o cheiro de lavanda embalando os pensamentos dormentes.
Secou bem entre os dedos, arrastando uma casquinha de machucado com a toalha. A pele rosada descia em ziguezague pelo mindinho até a altura do nó do dedo, como um raio que invade o crepúsculo.
O sol do dia anterior na piscina com as primas ainda estava impregnado em seu corpo. Haviam ignorado o filtro solar e os gritos da tia pedindo pelo amor de deus para passar o protetor, que iam torrar que nem misto quente e que ficariam com cara de maracujá antes dos trinta. Depois do banho, as lágrimas das primas escorriam sobre a pele de beterraba.
Nem ardido do sol, nem da casquinha bruscamente arrancada. Talvez por ser mais morena, talvez porque o corpo inteiro acompanhava o estado de suspensão da sua mente. Desceu do banquinho, olhou para a maçaneta e viu seu corpo refletido na superfície convexa, alongando-se para os lados à medida que se aproximava para abrir a porta. Deu uns passos para trás e o torso, como se feito de massinha, voltou a ser estreito. Sentou e segurou os joelhos, sem vontade de sair dali.
Uma hora antes, a mãe telefonara para o celular da tia. Catarina dormira com as duas primas em colchões na sala de TV, após uma maratona de musicais americanos. Lençóis, travesseiros e milhos que não viraram pipoca continuavam espalhados pelo chão e já era hora do almoço. A mãe deixara que Catarina faltasse ao colégio naquela manhã, sem qualquer resistência.
No telefone, a tia murmurava uma sequência de hums e ahams. Os dedos tremiam ao entregar o aparelho à sobrinha, os lábios apertados num sorriso capenga. Sem pressa, arrastou as pernas duras até o banheiro e trancou a porta. Do outro lado da linha, a mãe disse que passaria para buscar Catarina.
Tentou ganhar tempo, pediu mais meia horinha, só mais uma rodada do jogo, rapidinho.
Quando Catarina se deu conta, porém, o nó já estava dentro da sua barriga. A cada pausa, suspiro e vacilo na voz sempre firme da mãe, uma nova volta era acrescentada ao novelo em formação. Queria puxar o fio, desfazer tudo, passar mais um dia com as primas na piscina.
— Mas eu ainda posso faltar o inglês?
Era uma terça-feira normal. Seus amigos deviam estar agora na saída da escola, conversando em rodinha e esperando as vans que desceriam as ladeiras de Santa Teresa e os deixariam na porta de casa. Almoçariam assistindo qualquer coisa na TV, enrolariam para fazer os deveres e se dispersariam pelas aulas da tarde. Inglês, balé, vôlei, piano, flauta, circo, dança do ventre. Cursos clássicos misturavam-se a novas modas para aliviar o tédio das repetições.
Apertou o T e a porta de losangos pretos se desenrolou com impaciência, fazendo um estardalhaço que podia ser ouvido no prédio inteiro. Os botões molengas, a parede de madeira escura e o carpete áspero transportavam o passageiro numa viagem no tempo que durava 11 andares. Uma breve caminhada pelo piso de mármore até o fim da portaria e, ao abrir a porta de vidro, os zunidos de carros em alta velocidade e o canto altíssimo que atravessava as paredes da recém-inaugurada igreja neopentecostal tratavam de situar no terceiro milênio um bairro que insistia em não checar o calendário.
O carro escuro se aproximou e ela entrou no banco de trás, ao lado da mãe. Apesar do calor, Vitória vestia calças pretas de tecido e blusa bege. Entrelaçou os dedos nos da filha e só conseguiu oferecer um sorriso cansado. No banco da frente, os avós a cumprimentaram sem virar para trás, como se tivessem os pescoços engessados das bonecas de porcelana que sua mãe guardava no fundo do armário. O avô se esforçou para entabular uma conversa com a neta, perguntou da escola e do cachorro poodle que ele pedia para prender na cozinha sempre que ia visitá-los. A avó ficou em silêncio, o nariz vermelho em contraste com as lentes escuras dos óculos de sol, a imagem inadvertidamente refletida no espelho retrovisor.
O novelo dentro do estômago ganhou novas camadas. Com esforço, Catarina fixou os olhos na janela, a mão segurando o queixo, o cotovelo encaixado no recuo do apoio lateral. Uma senhora carregada de sacolas de supermercado tropeçou num desnível da calçada derrubando um vidro de requeijão, que rolou como bola de golfe até encontrar outro buraco mais adiante. Um menino pulava as listras brancas do chão e pisava apenas nas pretas, o chinelo fazendo pleque-pleque. Dois homens penduravam saquinhos de bala nos retrovisores dos carros enfileirados e corriam para recolhê-los antes de o sinal abrir.
O carro deixou o para-e-anda da via principal e virou à direita numa ruazinha de paralelepípedos. O som da cidade foi substituído pelo farfalhar dos jacarandás que eram penteados pela brisa do início da tarde. As árvores misturavam-se a prédios baixos e iam subindo desordenadas até serem substituídas pelo paredão nu que levava ao sovaco do Cristo Redentor. Viraram à esquerda na pracinha vazia, os bancos verdes e azuis implorando por uma mão de tinta. Estacionaram.
Mãe e filha se despediram dos avós e caminharam até a grade de um prédio cinzento, pisando sobre as vagens secas retorcidas como caracóis que cobriam a calçada. Em qualquer outro dia, Catarina teria feito questão de estalar todas as vagens e de juntar as sementes redondas para fazer de feijão para as bonecas ou de pingente. Naquela terça-feira, que para alguns era o início de mais uma semana tediosa, ela apenas seguiu Vitória até o elevador. Apertou o 2, e o botão ganhou uma cor alaranjada.
O olhar da mãe encontrou o seu no espelho que cobria metade da parede interna. Os olhos azuis que ela não herdara e as olheiras fundas cavadas no último ano, uma pá por dia, serviram de introdução para o que seria dito em breve. A franja descia pelas laterais do rosto da mãe e fios soltos espetavam o nariz delicado. Como se buscasse as palavras dentro de um baú de brinquedos bagunçados, Vitória destravou os lábios com um suspiro.
Catarina foi tomada por uma incontrolável vontade de fazer xixi.
— Não pode esperar? Precisamos conversar, você sabe.
— Não dá, mãe. Vou fazer xixi nas calças se você me fizer esperar mais dois segundos. Tem que ser agorinha mesmo.
Sentada no banquinho, ela tentava tomar coragem para sair e ouvir o que já sabia. Quando destrancasse a porta, aquela terça-feira seria ainda menos normal. Enquanto seus amigos praticavam o present perfect e esticavam os dedos para alcançar um ré sustenido mais grave, ela estaria deitada no sofá florido com a cabeça no colo da mãe, as lágrimas escorrendo e o cérebro latejando. Nas semanas seguintes, os adultos a olhariam com dó e, com uma voz ridiculamente infantil, diriam que ficaria tudo bem, que o tempo ia ajudar, que era a vontade de deus — e alguns até se convenceriam de que era mesmo. Os colegas não saberiam o que falar, o que talvez fosse melhor.
Viria um dia, depois o outro, e todos parariam de tocar no assunto. No seu aniversário, as luzes apagadas para o parabéns disfarçariam a ausência. Renas ou bonecos de neve de pelúcia ocupariam a cadeira vazia na celebração de Natal. Na noite da virada, os fogos abafariam o farfalhar da culpa pelos planos feitos para o novo ano.
Até que o novelo se desembaraçaria, discreto em seu desenrolar silencioso e, num futuro impossível de imaginar, o normal seria viver sem o seu pai.
Catarina destrancou a porta e saiu.