Águas-furtadasdi Bernardo Guerra Machado

Metade de mim era
um inocente espermatozoide; 
a outra metade
um óvulo sem culpa nenhuma.

Os meus progenitores
lá decidiram proceder à fecundação
e, uma vez que me vejo neste plano de Existência, 
creio não ter outro remédio
que não o de levar uma Boa Vida! 

Eu, que escrevo de umas águas-furtadas, 
com a claraboia a deixar entrar
(para além de um frio tremendo)
o Infinito pelo meu
quarto-por-esta-noite adentro;
eu

Acredito na Simplicidade da Vida! 

Sou um optimista à paisana:
vejo bem o pascácio do macaco snob que somos, 
o disparate que reina nos sistemas que montámos
e a desgraça em que pusemos o planeta; 
mas acho que toda a Felicidade do Mundo
está à distância de um singelo fechar de olhos!

. . . . . . . . . . . . . . . .

Fecha-se os olhos,
abre-se uma claraboia. 

E se nos sentarmos todos
no telhado
a Contemplar as Estrelas,
talvez nos apercebamos da nossa
Pequenez, 
nos deixemos de merdas
e comecemos a construir 
uma Verdadeira Humanidade…

Talvez um dia nos lembremos 
de como era quando nos Maravilhávamos deveras
e possamos finalmente 
parar
e Agradecer… 

Contando que mais dia menos dia
seremos definitivamente esquecidos,
mais vale fazer da Vida
uma quase-eterna gargalhada – 
com uma pausa na Morte, 
para recuperar o fôlego.